
Entrevista concedida por Jerônimo Mendes, consultor organizacional e autor do livro
Manual do Empreendedor à Patrícia bispo,
do portal www.rh.com.br, em janeiro de 2010.
RH - Em um mercado cada vez mais competitivo, que futuro o Sr. vê para os que "viram as costas" ao empreendedorismo?
Jerônimo Mendes - Serão atropelados por ele. Não dá mais para ignorar a importância do empreendedorismo em qualquer lugar do mundo, motivo pelo qual o assunto é motivo de campanha, de plataforma de governo e de publicação de livros e mais livros. De acordo com o GEM - Global Entrepreneurship Monitor, órgão responsável pela maior pesquisa sobre o tema no mundo, o Brasil reúne em torno de 15 milhões de empreendedores nos mais diferentes segmentos de negócio. Ainda que você não pertença ao clã dos legítimos empreendedores, você poderá trabalhar para eles, ser pai, mãe ou filho de algum deles, conviver com eles, além de comprar ou vender para eles. Portanto, quanto mais você entender esse universo e melhor se relacionar com ele, melhor a sua perspectiva de crescimento pessoal e profissional. Se for um deles e adotar uma perspectiva otimista, acredite você nunca mais verá o mundo da mesma maneira. Empreender transcende a lógica do mercado. Criar valor para a sociedade é uma das maiores contribuições do empreendedor e isso é motivo de orgulho para qualquer ser humano na face da terra.
Ainda no século 20, surgiu uma transformação impactante para todos: o advento da Era da Informação também conhecida como Era Digital trouxe à humanidade fatores que deixaram muitas pessoas assustadas, afinal as distâncias geográficas tornaram-se pequenas uma vez que a tecnologia possibilitou que informações percorressem o planeta em segundos. Como as mudanças não param de ocorrer, os profissionais também se deparam com a necessidade de desenvolverem novas competências. Dentro essa realidade, alguns se destacam porque possuem um diferencial: a tendência ao empreendedorismo.
RH - Quais os caminhos que um RH deve seguir para ser considerado um empreendedor de valor?
Jerônimo Mendes - Coragem e autenticidade são palavras-chave. Aqui vale a regra do posicionamento claro e transparente: quando você quer ser tudo para todos, você acaba não sendo nada. Portanto, assuma o papel de RH, incorpore na veia a preocupação com as pessoas, seja neutro quanto ao julgamento, separe o pessoal do profissional e absorva conhecimento ao extremo para ampliar o seu poder de argumentação. Não esqueça que o profissional de RH é neutro, pratica o senso de justiça e não espera o mundo desmoronar, ao contrário, toma a iniciativa. Na minha modesta opinião, o RH deveria ser a área mais importante da empresa e os profissionais de RH deveriam ser selecionados a dedo, com perfis específicos de RH, mas a realidade é outra na maioria delas. Quando o RH cresce, acaba sendo atropelado pela inveja dos demais departamentos. Coragem, isenção, autenticidade, profissionalismo, nada mais do que isso. É pedir muito?
RH - Qual a maior dificuldade que o profissional de RH encontra para liberar seu lado empreendedor?
Jerônimo Mendes - O potencial empreendedor depende de um ambiente altamente empreendedor. A palavra é bonita, mas na prática poucas empresas conseguem promover um ambiente empreendedor. O espírito pioneiro da Sony, definido por Akio Morita e Masaru Ibuka, reflete perfeitamente a essência do ambiente empreendedor. "A Sony é uma pioneira e nunca teve a intenção de seguir os outros. Através do progresso, a Sony quer atender ao mundo inteiro. Ela sempre estará em busca do desconhecido. Um dos princípios da Sony é respeitar e encorajar as capacidades das pessoas... e ela sempre tenta tirar o melhor de todos. Essa é a força vital da Sony". Conhece algo mais inspirador do que isso numa organização? Infelizmente, a maioria delas está preocupada somente com os resultados. É óbvio que os resultados são importantes, mas o futuro das empresas vai muito além dos resultados.
RH - Um RH empreendedor é um diferencial competitivo para o negócio?
Jerônimo Mendes - Quando se comporta como tal, sem dúvida. Na maioria das empresas, o RH é a porta de entrada. Através do RH, as pessoas começam a ter uma boa ideia do que será o seu futuro na organização. Esse fato tem um lado bom e outro ruim, como em tudo na vida. Quando a postura do RH é otimista, profissional, consciente das dificuldades e das perspectivas de crescimento dentro da empresa, a conversa inicial será franca e animada, o que inspira confiança e comprometimento da parte de quem chega. Por outro lado, quando o próprio RH não acredita na empresa, tende a deixar transparecer todo o seu descontentamento para os novatos. Um RH empreendedor tem obrigação de selecionar os melhores, os mais capazes, os mais aderentes ao negócio da empresa e, isso, faz uma diferença enorme nos resultados. Basta olhar para os resultados da Vale, da AmBev, da Microsoft, da INTEL, da CSN, do Google e tantas outras empresas de sucesso.
RH - Quais as características específicas de um RH empreendedor?
Jerônimo Mendes - Questão difícil. Penso que são várias, mas vou discorrer sobre três que considero fundamentais: iniciativa, poder de negociação - conciliação -, e senso de justiça. A iniciativa é inerente ao ser humano empreendedor e se o RH depender exclusivamente de orçamento ou da boa vontade da administração para fazer alguma coisa em termos de desenvolvimento pessoal, ele está perdido, não sai do lugar. Com iniciativa e ideias simples é possível atender a muitas reivindicações sem necessariamente comprometer o orçamento, mas é preciso vontade para fazer as coisas, tomar a frente, levantar o problema. Poder de negociação e o poder de conciliação são vitais para o melhor aproveitamento das pessoas, de acordo com as suas habilidades especificas. É muito simples e fácil demitir funcionários e isso os chefes sabem fazer com facilidade. Entretanto, saber aproveitar as qualidades, as competências ou as habilidades específicas que cada um tem de melhor somente os líderes sabem fazer. Quando não sabem, o RH deve assumir esse papel para não desperdiçar bons profissionais por conta de diferenças de juízo de valor. Conheço inúmeros exemplos de pessoas que não se adaptaram nas áreas para a qual foram contratadas, mas foram remanejadas e conseguiram se sobressair, graças à percepção e ao poder de conciliação do RH que visou os interesses da empresa antes dos interesses do chefe. Por fim, o senso de justiça deve prevalecer. Digo sempre que o RH não demite, não chama atenção, não dá notícia ruim. Isso é papel do superior imediato, do chefe ou do líder, como queira chamar, caso contrário, penso que não serve para liderar. O RH avalia as competências e promove o senso de justiça. Nesse caso, a palavra-chave é transparência. Quando alguém é demitido, o RH tem a missão de reposicionar as pessoas, esclarecer os fatores de sucesso, motivá-las e não de empurrá-las ainda mais para baixo. O profissional de RH não toma partido, é neutro, isento, atende aos interesses maiores da organização.
RH - Hoje, a maioria dos segmentos profissionais apresenta tendências empreendedoras?
Jerônimo Mendes - As características de sucesso pessoal e profissional confundem-se. O que pode ser aplicado na vida pessoal pode ser aplicado na vida profissional, portanto, o seu comportamento é quem vai determinar o grau de sucesso em qualquer segmento ou profissão escolhida. Além dos mais, todos os segmentos demandam profissionais que reúnam características empreendedoras. Independentemente da sua profissão, você vai precisar de criatividade, capacidade de persuasão, persistência, otimismo, vontade de prosperar, resultados positivos, paixão pelo que faz, capacidade de liderança e capacidade de resiliência. Caso contrário, você não suportará a oscilação frequente que ocorre na economia em escala mundial. Em qualquer segmento profissional, somente os fortes resistem. Portanto, o que muda é o foco de atuação, mas as características se mantêm.
RH - O empreendedorismo é um dos caminhos para se alcançar o sucesso?
Jerônimo Mendes - Não tenho a menor dúvida sobre isso. Se dependesse de mim, o empreendedorismo seria ensinado nas escolas desde o primeiro ano do ensino fundamental. Até o fim do século 18, o mundo contava com 80% de pessoas consideradas empreendedoras. A Revolução Industrial reverteu essa tendência, quando criou um novo sistema de arranjo produtivo através do confinamento das pessoas nas indústrias e nos escritórios. De lá para cá, o ser humano foi perdendo aos poucos a sua capacidade pessoal de realização em troca de uma pseudo-segurança no emprego que nunca foi conquistada. Hoje, quando tomamos conhecimento das histórias de Miguel Krigsner, de O Boticário, Salim Mattar, da Localiza, Anita Rodick, da The Body Shop e tantos outros empreendedores de sucesso, sentimos uma ponta de inveja. Não existe nada mais gratificante do que criar valor e agregar valor à vida das pessoas. Sucesso é gerar valor para o mundo, criar empregos, promover o sentido de realização e de contribuição. O dinheiro é mera consequência.
RH - Ser empreendedor é considerado um grande diferencial para o profissional?
Jerônimo Mendes - A maioria das empresas busca pessoas com características empreendedoras, que se comportem como donos, que tenham uma visão ampla do futuro, que demonstrem arrojo e determinação, dispostas a crescer junto com a organização. Sou um pouco cético com relação a essa questão do intra-empreendedor. Pessoas empreendedoras são livres, praticamente independentes e, geralmente, querem alçar o próprio voo, sem depender de chefes ou de patrões. Aliás, empreendedores querem ser o seu próprio patrão, portanto, é algo contraditório. Reunir características empreendedoras será sempre um diferencial em qualquer lugar do mundo e isso vale tanto para a vida pessoal como para a vida profissional, aliás, somos indissociáveis. Portanto, quanto mais cedo descobrirmos a nossa vocação, menor o sofrimento no futuro.